Projeto 18 Anos · Carteira da Sarah · Tese de investimento

BTCI11: o ticker mudou, mas a história começou muito antes

Por que coloquei um fundo de papel antigo, majoritariamente ligado ao IPCA, como uma peça estrutural da carteira da Sarah.

15%alocação estrutural planejada na carteira
Desde 2008histórico considerado nos materiais do BTG
R$ 1,00 bipatrimônio líquido na data-base do relatório
96% IPCAexposição por indexador informada pela gestão

Em 15 de junho de 2026 eu comprei onze cotas do BTCI11 para a carteira da Sarah. Paguei R$ 101,86 no total.

Menos do que uma janta para dois, ainda mais para ela que adora comida japonesa.

Não escrevo isso para diminuir o investimento. É justamente o contrário. O Projeto 18 Anos existe para mostrar que uma carteira séria não precisa começar grande, ela precisa começar com alguma lógica. Escolhi fundos com cotas perto de R$ 10,00 porque fica fácil acompanhar, reinvestir e mostrar, sem fazer malabarismo, para onde o dinheiro está indo.

O BTCI11 entrou com uma função bem clara: colocar crédito imobiliário, renda mensal e uma exposição forte à inflação dentro da carteira. Não é o fundo que precisa fazer tudo. É uma peça entre outras.

Antes de abrir a carteira e olhar os papéis, existe um gráfico que ajuda a explicar por que o tempo de bolsa também pesou na escolha.

Gráfico de rentabilidade acumulada do BTCI11 comparado ao CDI e ao IFIX até 4 de agosto de 2026
Rentabilidade acumulada até 04/08/2026: BTCI11 +399,22%, CDI +362,99% e IFIX +278,44%, conforme o gráfico fornecido para esta tese. A série visual começa em 2010. Rentabilidade passada não garante o resultado que virá daqui pra frente.
O começo da história

O código é mais novo. O fundo, não.

Quem olha apenas para o ticker BTCI11 pode imaginar que estamos falando de um fundo recente. Só que ticker é nome de prateleira. Ele pode mudar sem apagar tudo o que aconteceu antes.

O veículo atual nasceu da incorporação dos antigos FEXC11 e BTCR11. O relatório de julho de 2026 registra o início do fundo em maio de 2008, enquanto outros materiais do próprio BTG usam abril de 2008 e deixam claro que o histórico do FEXC11 é considerado nos gráficos de desempenho.

Existe essa diferença de um mês entre documentos. Não vou fingir que não existe. Mas ela também não muda a conclusão, pois não estamos analisando um fundo que apareceu ontem só porque o código atual é mais novo.

O gráfico ajuda, mas não decide sozinho

Ele mostra que o fundo atravessou muitos anos, juros altos, juros baixos, pandemia e mudanças no próprio veículo. Não mostra que o BTCI11 sempre vencerá o CDI, que nunca cortará rendimentos ou que seus créditos jamais terão problemas.

Pra falar a real, é esse o uso correto do histórico. Não é olhar para trás e prometer que o futuro será igual. É verificar se já existe tempo suficiente para observar como a estrutura se comportou quando o caminho ficou ruim.

Sem economês

O que existe dentro de uma cota

O BTCI11 é um fundo de papel. Na maior parte do tempo ele não compra um prédio para receber aluguel diretamente. Ele compra principalmente CRIs, os Certificados de Recebíveis Imobiliários.

Em português normal, CRI é uma dívida ligada ao mercado imobiliário. Uma incorporadora pode antecipar dinheiro de vendas futuras. Um fundo pode financiar a compra de galpões. Uma empresa pode usar imóveis, contratos ou recebíveis como garantia. O BTCI11 coloca dinheiro nessa operação e recebe juros em troca.

Eu penso nisso como uma pasta cheia de boletos imobiliários. Em cada boleto existe alguém devendo, uma taxa combinada, um prazo e alguma garantia caso a conta pare de ser paga.

A comparação ajuda, mas não pode enganar. Boleto atrasa. Empresa entra em dificuldade. Imóvel dado em garantia pode demorar para ser vendido. E fundo imobiliário não tem cobertura do FGC.

O dividendo é o fim da história, não o começo

Antes de olhar o valor que caiu na conta, precisamos saber quem deve o dinheiro, qual é a garantia, quanto do fundo está naquela operação e se a taxa recebida compensa o risco assumido.

A cada R$ 100,00 do fundo

Onde o dinheiro estava trabalhando

Na lista detalhada do relatório de julho de 2026, a carteira estava dividida aproximadamente assim:

CRIs Crédito imobiliário estrutural e algumas posições táticas R$ 82,00
Outros FIIs Cotas de fundos como BTYU11, KNIP11, XPCI11 e outros R$ 15,60
Renda fixa Caixa e liquidez para despesas e novas oportunidades R$ 1,90

Os valores são arredondados e por isso não fecham exatamente R$ 100. O que importa aqui é enxergar a estrutura: o BTCI11 é um fundo de crédito, mas tem uma parcela relevante em outros FIIs. Isso pode ajudar na renda e na liquidez, porém também significa que nem todo o dinheiro está em CRIs comprados diretamente pela gestão.

A parte que mais pesou na escolha: o IPCA

Na divisão por indexador, 96% da exposição estava ligada ao IPCA, 3% ao CDI e 1% a outros índices.

96% Isso não quer dizer receber 96% de inflação. Significa que a maior parte dos contratos costuma pagar a variação do IPCA mais uma taxa de juros combinada.

Um CRI pagando IPCA + 8%, por exemplo, tenta entregar a inflação do período mais 8% ao ano de juros reais, respeitando as regras e a defasagem daquele contrato. A conta do fundo ainda passa por despesas, amortizações, marcação a mercado e pelo momento em que cada receita entra.

Para uma carteira que ainda tem anos pela frente, eu gosto dessa função. Escola, comida, roupa, transporte e tudo mais vão custar mais no futuro. Ter uma parte do patrimônio ligada ao índice de preços não resolve a inflação, mas coloca uma parte do dinheiro tentando acompanhar aquilo que encarece a vida.

Mas aí existe o outro lado. Se a inflação cair, a parcela de correção também cai. E como 65% da carteira aparecia com duração superior a cinco anos, mudanças nas taxas de mercado podem mexer bastante no valor dos papéis. IPCA não é um escudo que impede a cota de oscilar.

O crédito de verdade

As cinco maiores operações da carteira

Essa é a parte que eu considero mais importante em qualquer fundo de papel. O indexador é a forma de corrigir a dívida. Quem paga a conta continua sendo o devedor.

As cinco maiores operações somavam perto de 29% do patrimônio. Não é uma concentração pequena, então vale saber o que existe ali dentro.

Operação % do PL Taxa de emissão Garantias informadas LTV
Portfólio Imobiliário Diversificado 8,1% IPCA + 11,50% Recebíveis, imóvel, participações e fundo de reserva Não informado
Cury 5,9% IPCA + 8,64% Imóvel, recebíveis e coobrigação da companhia Não informado
Casa Shopping 5,4% IPCA + 9,35% Shopping center e cessão dos aluguéis 53%
Direcional 4,7% IPCA + 8,22% Imóveis após o habite-se e fundo de reserva 86%
CRI XPLG 4,6% IPCA + 8,76% Imóveis, locações, cotas e fundo de reserva 43%

LTV é a relação entre a dívida e o valor da garantia. Um LTV de 53% significa, de forma simplificada, que para cada R$ 100,00 de garantia existem aproximadamente R$ 53 de dívida. Quanto menor, maior tende a ser a folga. Mas garantia não paga dividendo sozinha. Se der problema, ainda pode existir briga jurídica, demora e custo para recuperar o dinheiro.

O maior LTV entre essas operações é o da Direcional, com 86%. Isso não transforma o crédito automaticamente em ruim, porque também existem subordinação, fundo de reserva, recompra de créditos e outras proteções descritas no relatório. Mas é um número que merece mais atenção do que um simples “está tudo garantido”.

Os imóveis por trás do papel

Em quais setores o fundo estava exposto

Mesmo sendo um fundo de papel, o dinheiro continua ligado a atividades imobiliárias reais. Na carteira, os dois maiores blocos eram residencial e logística.

35,5%

Residencial

Incorporadoras, terrenos, unidades vendidas e recebíveis de moradia.

33,7%

Logística

Galpões, centros de distribuição e operações de logística refrigerada.

11,6%

Shoppings

Créditos ligados a centros comerciais e seus contratos de renda.

8,0%

Renda urbana

Supermercados, varejo e imóveis usados na operação das empresas.

5,8%

Corporativo

Companhias e projetos imobiliários de uso empresarial.

5,4%

Outros

Operações que completam a diversificação fora dos grupos principais.

Eu gosto dessa mistura porque o fundo não depende apenas de apartamento, shopping ou galpão. Mas não confundo diversificação com imunidade. Dois créditos de setores diferentes ainda podem sofrer juntos quando os juros apertam, a economia esfria ou o devedor perde acesso a financiamento.

Tamanho, renda e preço

Os números que realmente importam

Na data-base de 30 de junho de 2026, o relatório apresentava os seguintes indicadores:

IndicadorValorMinha leitura
Patrimônio líquidoR$ 1,00 bilhãoAjuda a espalhar a carteira e os custos. Tamanho, sozinho, não garante qualidade.
Cota patrimonialR$ 10,10Valor contábil aproximado dos ativos líquidos por cota.
Cota de mercadoR$ 9,12Negociava perto de 10% abaixo do valor patrimonial na data-base.
Rendimento do cicloR$ 0,105Foi o pagamento daquele período, não um salário contratado para sempre.
Cotistas211.601Base ampla, o que ajuda na negociação, mas não melhora os devedores.
Liquidez média diáriaR$ 5,04 milhõesVolume suficiente para o pequeno investidor entrar e sair com facilidade razoável.
Taxa de administração0,95% ao anoCusto recorrente informado pelo fundo. A página oficial indica taxa de performance como não aplicável.

O desconto perto de 10% chama atenção, mas desconto não é argumento completo. Uma cadeira com a perna quebrada também pode estar barata e continuar sendo uma cadeira quebrada.

O preço só interessa quando a carteira continua fazendo sentido. Eu prefiro pagar menos por um fundo saudável do que pagar pouco por um problema que ainda não apareceu inteiro no relatório.

A renda aguenta?

O rendimento de R$ 0,105 é sustentável?

Nos doze meses apresentados no relatório, o BTCI11 produziu aproximadamente R$ 1,208 de lucro líquido por cota e distribuiu R$ 1,172 por cota.

Ou seja, no período inteiro o resultado cobriu o que foi entregue aos cotistas e ainda deixou uma diferença positiva próxima de R$ 0,036 por cota.

O último mês, porém, foi diferente. Em junho o lucro líquido ficou em R$ 0,093 por cota e a distribuição foi de R$ 0,105. O fundo conseguiu fazer isso porque carregava resultado acumulado de meses anteriores, próximo de R$ 0,148 por cota.

Pagar mais do que produziu em um mês não é automaticamente ruim

O fundo pode guardar resultado quando ganha mais e usar essa reserva para suavizar a renda quando ganha menos. O problema aparece se a distribuição ficar muito tempo acima da produção e a reserva começar a sumir sem reposição.

A resposta honesta, portanto, é esta: R$ 0,105 estava coberto quando olhamos os doze meses, mas não é um valor garantido.

O IPCA pode cair, CRIs podem amortizar, novas operações podem entrar com taxas menores, devedores podem atrasar e ganhos extraordinários podem desaparecer. Por isso vou acompanhar resultado mensal, reserva e origem da receita, não apenas o valor do anúncio.

O risco não some

O que pode machucar essa tese

Todas as operações estavam adimplentes, mas já existia um alerta

O relatório informou que as 31 operações estavam em dia. Ao mesmo tempo, a Le Biscuit, responsável por cerca de 0,9% do patrimônio, havia entrado em recuperação judicial. A gestão dizia que o crédito era extraconcursal e que negociava a continuidade dos pagamentos ou a execução da garantia.

Esse caso mostra por que a palavra “adimplente” precisa ser lida com calma. Ela significa que o pagamento estava em dia naquela fotografia. Não significa que a empresa esteja saudável ou que continuará pagando para sempre.

Também existe o risco de prazo. Uma carteira com duration longa sente mudanças nas taxas de mercado. Os devedores podem continuar pagando normalmente e, ainda assim, a cota patrimonial cair porque novos títulos passaram a oferecer juros maiores.

Existe risco de crédito, garantia, concentração e reinvestimento. Se um CRI bom for amortizado antes do prazo, a gestão precisa encontrar outro tão bom quanto. Nem sempre existe.

E existe o risco mais comum de todos: o cotista olhar apenas o dividendo. Quando a renda cai, ele vende sem entender. Quando sobe, compra sem entender. Nos dois casos a decisão fica sendo tomada pelo último centavo pago, não pela qualidade do fundo.

Função na Carteira da Sarah

Por que 15% e não mais?

Eu gosto da lógica do BTCI11. Gosto do histórico, do tamanho, da liquidez e da exposição ao IPCA. Mas nenhum desses pontos transforma o fundo em dono da carteira. Se vocês lerem as demais teses, perceberão que praticamente todos os fundos têm quase essa mesma alocação estrutural.

Os 15% representam uma função clara que é, carregar crédito imobiliário corrigido principalmente pela inflação. A carteira da Sarah também tem imóveis físicos e outras estratégias. Assim, um problema específico em um fundo não decide sozinho o futuro do projeto.

Ele não precisa ser o melhor fundo de papel em todos os meses. Precisa cumprir o trabalho para o qual foi comprado.

  • Qualidade dos maiores CRIs: devedores, garantias, LTV e qualquer renegociação.
  • Resultado contra distribuição: se a renda vem da operação ou de reserva sendo consumida.
  • Novas alocações: uma carteira boa hoje pode piorar se o dinheiro novo for mal empregado.
  • Concentração: quanto os maiores créditos e setores passam a representar.
  • Transparência da gestão: problema existe, esconder ou explicar mal é que não pode virar costume.
Conclusão

O que eu estou comprando de verdade

Quando compro uma cota do BTCI11 para a Sarah, não estou comprando apenas o último rendimento de R$ 0,105.

Estou comprando uma pequena participação numa carteira de dívidas imobiliárias. Existe um histórico iniciado em 2008, uma gestora conhecida, patrimônio de R$ 1 bilhão, dezenas de operações e uma exposição muito forte ao IPCA.

O histórico me mostra que a estrutura já atravessou muita coisa. O IPCA dá ao fundo uma função clara dentro de um projeto longo. O resultado de doze meses cobriu a distribuição. A taxa é simples de entender. A liquidez facilita os aportes pequenos.

Mas a tese não é perfeita. Existe duration longa, existe crédito para acompanhar, existe uma empresa em recuperação judicial e existe um rendimento que pode cair.

E está tudo bem.

Investimento sem risco fica bonito em propaganda ou power point. Na carteira real, o trabalho é escolher riscos que façam sentido, não fingir que eles desapareceram.

Foi por isso que o BTCI11 entrou nesta carteira, e não porque o ticker é bonito ou porque pagou mais num mês. Entrou porque tem uma função, e essa função pode continuar trabalhando enquanto ela cresce.

O ticker pode mudar, mas a função precisa continuar de pé.

Enquanto a carteira mantiver qualidade, resultado e transparência, o BTCI11 seguirá como uma das engrenagens de renda do Projeto 18 Anos.

Documentos e fontes usados

Este texto registra uma decisão pessoal da Carteira da Sarah e possui finalidade educacional. Não constitui recomendação de investimento. Fundos imobiliários são renda variável, podem apresentar perdas, oscilação das cotas e redução dos rendimentos, e não contam com garantia do FGC. Os dados refletem as fontes e datas indicadas e podem mudar.

Dinheiro, família e futuro

Continue esta conversa

Receba gratuitamente os próximos textos do Caderno do Pai. Histórias reais, linguagem simples e nenhum atalho milagroso.

Assine gratuitamente